O portal da Salsa do Brasil entrevistou ao vivo o líder do Salsalitro, Jorge Zarath, e o percussionista Ito Araújo. A equipe do www.salsa.com.br formulou as perguntas e a entrevista foi conduzida por Clarice Ferreira e Ilunga Kabengele, dançarino, músico e integrante da Cia Conexión Caribe.
Boa Leitura! Equipe do www.salsa.com.br
Falem um pouco sobre cada integrante do Salsalitro. Qual a sua
formação? Meu nome é Jorge Zarath, sou vocalista, Nogueira é o
arranjador, percussionista, baterista, saxofonista e flautista, Ilmar Santana é
o baixista, Airton Moura é o pianista, Alisson “Mulequinho” é o trompetista,
Carlinhos Pitanga é o trombonista, Luis Cabrera, que é um cubano, toca sax tenor
e os percussionistas são Júnior Oliveira, Ito Araújo e Fred Miranda, sendo que
Ito Araújo faz os vocais, e Marco Santana é o baixista.
Nasci em
Montevidéu, no Uruguai, e vim morar no Brasil aos 11 anos, mas continuei
voltando para lá para visitar minha família que mora lá. Desde pequeno a gente
ouve salsa, o único país onde não se ouve tanto a salsa é o Brasil. Inclusive
este é um assunto que eu gostaria de abordar adiante. O que a gente faz se chama
"Latinagô". Vou explicar isso mais adiante.
Como você se envolveu com
a salsa? Primeiramente ela já está na veia. Quando você é menino, ouve
muita salsa, há lugares onde se dança todo final de semana, não só no Uruguai,
em Montevidéu, mas em toda a América Latina e Europa. Isso é um movimento. É uma
música que existe há 40 anos. A gente não descobriu a pólvora, a música, a
banda.
A banda toca muitos clássicos da MPB em ritmo de Salsa. De
onde surgiu essa idéia? Concluindo a primeira pergunta, isso já veio
comigo. Eu me envolvi desde criança e curto muito a salsa. Só que fui para
Salvador e me envolvi com a música baiana. Sou compositor de mais de 50% dos
hits da música baiana de todos os artistas mais conhecidos. A gente toca alguns
clássicos da MPB que se adaptam como músicas do Gilberto Gil, Djavan, do próprio
Caetano, do Chico Buarque, etc. E a idéia era aproximar e justamente encurtar a
distância que existe no Brasil em termos de idioma. A música é muito
contagiante, mas a língua criava um pouco de afastamento. Mas não é só isso.
Começamos tocando essas músicas, além das tradicionais de salsa executadas no
mundo inteiro: Célia Cruz, Rubem Blades, Elvis Crespo, Juan Luís Guerra, Willy
Colón e Glória Stefan. Tocamos esses hits mundiais, mas como sou compositor,
comecei a criar músicas em cima do nosso estilo, mas com a leitura de festa que
é Salvador. A gente respira isso há tanto tempo, misturando a música de Porto
Rico e da América Central com a música baiana. Disso surgiu o "Latinagô", por
isso a gente é "Latinagô". Fizemos a mistura com a música brasileira justamente
para aproximar.
Como são escolhidas as músicas do
repertório? Viajo freqüentemente para o exterior por 15 ou 20 dias ao ano
-- já fui para o México, Cuba, Europa -- e trago as músicas que são hits ou faço
uma pesquisa em cima de músicas antológicas e mesclamos com o que vou criando.
Esta é a leitura que demos nesses cinco anos desde o início do Salsalitro em
1997. Comecei a compor e alguns parceiros que fazem música comigo sabem o que eu
queria dizer com as músicas. Não posso comparar as letras de salsa com as
músicas que eu já fiz para o Axé Music e para as outras coisas que continuo
fazendo porque são músicas simples, muito menos trabalhadas, com mais
compromisso com refrão. A música baiana é bem simples, é cheque ao portador. Mas
a música que o Salsalitro faz é muito mais híbrida, ou seja, ela não tem
compromisso com aquele ritmo rápido, não é um tipo de música que você ouve e já
aprende o refrão na primeira vez que ouve porque a idéia não é essa.
Qual a expectativa de vocês em relação ao crescimento da Salsa no
Brasil? Eu tenho uma leitura que faço questão de dizer agora, como tenho
dito para o Ricardo Garcia e para o Gazu, que é um professor de dança e também
um DJ. Para as pessoas que curtem salsa eu tenho dito: “Gente, a salsa é bacana,
a salsa é ótima, mas se a gente quiser expandir nossos negócios com a música,
temos que abrasileirar.” Como abrasileirar? Não estou querendo fugir dos
fundamentos da religião que é a salsa no mundo, só que o Brasil tem uma cultura
muito rica e, nos últimos anos, mesmo com novelas e gravadoras tentando empurrar
a salsa para que ela se torne um sucesso no Brasil, isso nunca aconteceu. Mas
com o Salsalitro vai acontecer. Por quê? Porque nós estamos com a essência, a
leitura. Muitos salseiros já viram. Os paulistas já viram o Salsalitro e sabem
que a gente toca mesmo, de verdade, a salsa. Mas o que acontece? Como nós somos
baianos, somos pretensiosos. A gente quer que isso se expanda. Então, não viemos
para São Paulo para que o público que gosta do Heartbreakers, do Havana Brasil,
do Pedro La Colina, das bandas que tocam esse tipo de música, diga: “Que bom,
tem mais uma banda legal de salsa.”. Isso a gente já sabe. O que a gente quer
fazer é dar um upgrade, é criar um movimento, criar um gancho de mídia que
provoque uma pergunta. Porque se você se senta na cadeira do Jô (Soares), ele
fala para você: “Ah, legal, vocês tocam salsa, né? Que bacana!”. Salsa não é
novidade nenhuma. Salsa acontece no mundo e nunca aconteceu no Brasil. As
grandes mídias, as gravadoras no Brasil, já tentaram investir, mas nunca deu
certo. Então para que a gente saia desse gueto, que é uma quantidade
interessante de gente, para expandir esse gueto, para que as pessoas tenham mais
curiosidade pela salsa num futuro próximo, o show do Salsalitro é feito em cima
de coreografias muito mais simples do que dançar em casal. A gente está querendo
correr daquele negócio de que as pessoas vão para o show, acham bacana, mas
nunca vão chamar uma mulher para dançar porque “Ah, eu não vou dançar daquele
jeito nunca na minha vida.” É como no tempo da lambada, quando havia todos
aqueles malabarismos, poucas pessoas sabiam dançar e o resto ficava só olhando.
É por isso que digo que nós somos baianos e fazemos a festa para todos, não para
poucos. E isso é o que eu tenho dito aos dançarinos e profissionais: “A gente
tem de pegar a isca, botar um camarão vivo bem gordo e jogá-la. Sabe qual é o
camarão vivo? São as danças. Essas dancinhas, esses merengues, essas plenas que
os dançarinos acham chatas, mas é isso que vai atrair mais gente, a curiosidade
de aprender de fato como se dança. Isso irá provocar a curiosidade da mídia e
vai fazer a gente sair desse gueto. Tudo bem que nos últimos doze anos o próprio
Heartbreakers cresceu muito, depois se dividiu e virou Havana Brasil e
Heartbreakers. Esse movimento foi muito importante, mas ficou perdido dentro da
história e a salsa nunca vingou. Nós queremos mudar essa história. É essa minha
expectativa de crescimento: a salsa como essência, mas numa leitura brasileira,
uma leitura latinagô. Por quê latinagô? Porque é latino, é negão, é brasileiro.
Essa é a leitura que a gente faz sobre a gente mesmo. E eu já disse qual seria o
melhor caminho para isso acontecer.
Vocês têm consciência da barreira
que estão atravessando cantando salsa em português? Completamente.
O público salseiro não estava preparado para ouvir salsa em português
e o público brasileiro não estava preparado para ouvir salsa. E, de repente, a
gente que torcia um pouco o nariz para a salsa em português, porque não a
considerava como salsa, está gostando. Você tem consciência da barreira que
estão rompendo? Claramente. E te digo por quê. Nós estamos com o grupo
Salsalitro há cinco anos. Antes de nos dedicarmos exclusivamente, tocamos
durante um ou dois anos. Passamos um ano pesquisando e, nesse decorrer de tempo,
continuamos a pesquisar. O Salsalitro sempre teve músicos muito bons, acima da
média, que sempre estudaram esse tipo de música. E o que acontecia no Brasil
quando uma banda de salsa pegava uma música brasileira? Ela não dava a leitura
de salsa, mas de música brasileira. E fica um monstro, não fica? Mas como nós
conhecemos todas as claves, estudamos e pesquisamos -- não estou aqui criticando
ninguém, estou falando sobre o nosso trabalho --- é diferente. Há uma música
que não estamos tocando mais, mas para a qual temos o arranjo escrito, chamada
”Tanta Saudade”, que é uma música antiga do Djavan e do Chico Buarque gravada em
salsa. Só que foi gravada em salsa tocada por músicos brasileiros que não
pesquisaram e não tinham conhecimento. Então quando você vai tocar para quem
gosta de salsa, fica estranho! Agora, terei a oportunidade de tocá-la com o
Salsalitro e você vai ouvir e dizer: “Poxa, parece outra música!”. Sabe por quê?
Porque é salsa. A leitura que a gente deu foi de salsa. Eu vejo, por
exemplo, grupos que tocam maxixe e samba no meio do show. Não entendo.
Já vi. Você já viu, né?
Já. Essa leitura que
dão à música brasileira fica um monstro, porque não se faz uma leitura, não se
lêem as claves, nem se reproduz a música. Por exemplo, em nosso segundo disco
tocamos uma música do Gilberto Gil chamada Expresso 2222 num ritmo chamado
“bomba”. Até o próprio Gil falou: “O que é isso? Que coisa? Como é que pôde?”
Pôde. É diferente. Tem muita gente que acha que tocar salsa é simplesmente
colocar a música e botar uns metais. Não é isso. Tem as claves, tem de estudar,
verificar se é dois-três, três-dois, qual é o ritmo que melhor se encaixa, qual
é o tipo de arranjo. Essa é a leitura que a gente faz. Temos uma sacola de
argumentos que são muito mais do que verbais, estão no palco.
Qual
seria o melhor caminho para isso acontecer? Eu acho que o melhor caminho
para que a salsa aconteça no Brasil é pela meia volta do latinagô.
O
que os trouxe a São Paulo? Por que a escolha desse mercado? Estamos
tocando em Salvador e lotando o Rock in Rio Café há três anos, parando só 15
dias depois do Carnaval e voltando em seguida para tocar o ano inteiro. Isso não
acontece em Salvador, não existe nenhum grupo que toque o ano inteiro em um
lugar. Nós conseguimos fazer isso e há três anos também tocamos no carnaval de
Salvador, sem bloco, num trio elétrico tocando o repertório do show do
Salsalitro, nada de música do carnaval, e arrastamos uma multidão. O Salsalitro
em Salvador é respeitado por todos, não somente pelo público, mas também pelos
artistas. E por que São Paulo? Porque é onde a gente que acontece. Por não temos
mais para onde crescer na capital da Bahia. Fizemos o reveillon de Salvador com
Ivete Sangallo e Daniela Mercury, que são as artistas mais importantes da música
baiana. Somos convidados para todos os tipos de eventos em Salvador. Para
conseguirmos um destaque na terra onde a coisa mais importante é o axé e o
pagode, e onde existem os blocos de carnaval, a grande mídia, as rádios, estão
mais concentradas no axé. Portanto, entramos como coadjuvantes lá e você sabe
que se chamar o Salsalitro, todo mundo vai curtir para caramba e dançar. Mas, as
oportunidades de notoriedade nacional tinham de estar aqui. Aqui é um lugar com
um campo muito vasto pelo tamanho e por tudo que já sabemos. Em um mês em São
Paulo, estamos conseguindo fazer coisas que no começo levávamos um ano para
conseguir. Estamos aqui há exatos um mês e cinco dias, já fizemos 11 shows e
temos 14 confirmados para o mês de julho. Ou seja, é um upgrade total, não só em
termos de quantidade de shows, mas justamente porque São Paulo é muito maior e,
naturalmente, se você conseguir um destaque aqui, o Brasil inteiro fica sabendo.
A própria mídia de São Paulo, na música, na arte e até no próprio futebol,
respira São Paulo. Parece que o Brasil é São Paulo e o Brasil não é São Paulo, o
Brasil é muito grande! Entretanto, a mídia respira São Paulo e a mídia do Brasil
todo acaba respirando isso.
Qual é a agenda de vocês para esta
temporada aqui em São Paulo? Estamos tocando no Ôrra Meu às quartas,
fizemos dois shows na Estância Alto da Serra e devemos ter um dia também que irá
fomentar campeonatos de grupos de coreografia, produtos latinagô e essas coisas
da salsa. Há também o Carioca Clube, onde devemos fazer uma noite. A partir
do dia 1º de julho, tocaremos na inauguração do Ibiza, onde tocaremos
quintas-feiras e talvez em uma terça-feira. Esta é uma casa de grande porte com
unidades em Porto Alegre, Gramado e Blumenau, que talvez venha a ser a melhor
casa da América Latina.
Como o Salsalitro tem aproveitado a Internet
? Qual o retorno? Temos o nosso site (www.salsalitro.com.br) e e-mail, mas
como estou aqui em São Paulo nessa correria há um mês, matando um leão de manhã,
dois tigres à tarde e dez cobras de noite, e está um pouco complicado sentar na
frente do computador, mas o pessoal do escritório de Salvador tem acesso a esses
recursos.
Como você tem sentido a receptividade do público que não é o
público salseiro como no Estância Alto da Serra? Eles estão loucos pelo
Salsalitro. Loucos, sabe por quê? Porque tem a mesma festa que eles consomem. E
como uma coisa diferente, uma música diferente, acho que é fantástico!
Algumas pessoas têm criticado o trabalho de vocês, alegando não ser
"salsa pura". O que vocês têm a dizer sobre isso? Reforçando tudo o que
eu já disse no início, quero dar um upgrade no trabalho do Salsalitro e na
própria salsa. Se alguém acha que não é salsa pura -- não sei o que estão
chamando de salsa pura -- gostaríamos que soubessem que tocamos salsa pura, mas
também tocamos outras coisas que quem é “salseiro puro” não curte, como merengue
e plena, que são ritmos mais rápidos. E como disse antes, estou querendo que a
salsa no Brasil saia do gueto. E tenho cadeira para fazer isso. Primeiro porque
sou uruguaio, além disso, respeito essa música, hablo español mejor de lo que
hablo portugués, tenho a leitura de todos esses trabalhos, conheço, sei quem faz
bem e quem não faz, e o Salsalitro faz bem -- para tudo, inclusive para a cabeça
e o coração.
O release de vocês termina com os três mandamentos para
curtir o Salsalitro: ”feche os olhos, sinta a música e se jogue no ritmo”. Qual
a mensagem que vocês gostariam de deixar para o pessoal do salsa.com.br, nossos
leitores, a galera que já experimentou essa sensação, gostou e ficou? Eu
diria que espero que tenha ficado claro que respeito os salseiros de plantão,
mas acho que, como tudo no mundo, a salsa não é nenhuma novidade, ela acontece
no mundo inteiro, há muitos anos na Europa, em todos os países e até em
Jerusalém. Eu tenho amigos baianos que moram em Jerusalém e dizem que há 11
casas de salsa. Jerusalém é lá em Israel, onde está rolando aquela confusão
toda. Então, no mundo acontece isso, mas é para a própria expansão da salsa
brasileira. Eu já ouvi estórias de grupos aqui do Brasil que tocaram no exterior
e as pessoas diziam: "Pelo amor de Deus, toque samba. Toque samba pelo amor de
Deus!". Por que isso? Porque as pessoas dizem "Isso não é salsa". Então, vamos
ver quem está tocando salsa. Repito: o Salsalitro está tocando salsa. Só que o
Salsalitro está com o camarão vivo na isca louco para pegar o peixe. Para dar
essa volta e para que as pessoas tenham curiosidade, muito mais gente nesse país
precisa saber o que é a salsa. Mas primeiramente devemos falar uma linguagem que
as pessoas entendam. Não adianta você ficar sozinho no deserto e fazer música
para seus amigos acharem bacana. Não adianta. Você vai ser um músico ali e não
vai passar daquilo. Você vai morrer com seus amigos te dando tapinhas nas costas
e dizendo: “Você faz salsa pura”. Muito obrigado. Eu quero fazer -- e faço --
salsa pura mesmo, mas também faço outras coisas que nos aproximam de mais
público, que vão despertá-los para aprender a salsa pura e dançar. Senão as
pessoas vão ficar simplesmente afastadas. As minorias sempre conquistaram algo
quando deixaram de ser minorias e ampliaram seus horizontes.
Eu acho
interessante a mistura, a dosagem que vocês fazem na salsa rápida, depois vocês
chamam o público que não são salseiros e o pessoal vem, fica e mostra. É
isso.
Eu acho uma proposta muito boa, porque a gente está sempre
discutindo isso na lista do www.salsa.com.br. Como se faz para aumentar o número
de pessoas? Estamos falando sobre aumentar o número de pessoas que
curtam, que despertem. Porque o cara só vai se interessar se começar a vir e a
fazer aqueles passinhos. Gente, olha [levanta e mostra os passinhos]. Isso aqui
não está sendo filmado, né? Estou fazendo, ó. Tété. Um passinho para esquerda,
um passinho para direita. Qualquer criança faz isso. Então qualquer gordinho,
aqueles caras que não dançam, as minas que só sabem dançar axé vão começar a
achar legal e botar uma mãozinha aqui. Só que daqui a pouco tão fazendo
passinhos e estão com os braços assim e daqui a pouco têm curiosidade de saber e
aprender a dançar melhor e começará a fazer aulas na academia. Do contrário,
você só terá aquela quantidadezinha de gente que vai ter coragem de dizer: “Me
ensine, por favor.” E as pessoas não vão às casas noturnas, vão dançar na
academia para aquelas mesmas pessoas, aquela mesma quantidade de gente. E não
expandimos a salsa. Aí ficamos com a nossa “salsa pura” para nós cinco. Para nós
são 10.000, que tal 50.000 pessoas entrando no site? Estão entendendo? Acho que
foi bem claro, né?
A que se atribui a qualidade dos metais do
Salsalitro? Temos muita qualidade, mas sabe por quê? Porque fazemos isso
há muito tempo e, além disso, tudo é escrito, muito ensaiado, existe muito
respeito com a música e uma extrema dedicação. Por exemplo, os nossos dois
discos são ao vivo, e vocês sabem como gravar ao vivo é complicado. Mas por que
isso? Isso é seriedade, estudo, responsabilidade e um objetivo.
É
algo que chama a atenção de todo mundo. A gente sabe a importância de um metal
bem colocado e bem feito numa salsa. É uma coisa que as pessoas descuidam aqui
em São Paulo. Para você montar um naipe bom de metais, você sofre porque ou você
pega músicos de orquestra que têm afinação, mas não têm pegada, ou pega os caras
que vieram não sei de onde, que têm pegada, mas não têm afinação. Enfim, é um
horror. Você escuta várias bandas de salsa que estão quase lá, mas os metais...
E uma coisa que impressionou a todos na primeira entrada de vocês “Ô, que metal
é esse? Um metal salseiro de verdade!" quer dizer, tem qualidade. Eu
também estava falando sobre isso no início. Eu não sou baiano, sou uruguaio, mas
a música na Bahia é uma religião! Quando se é músico e baiano ou então quando se
mora na Bahia e respira isso, é diferente. Você encara a música de outra
maneira. É por isso que você vê esse folclore toda vez que há alguma coisa sobre
a Bahia, aparece um molequinho desse tamanho já dançando, é uma coisa que está
no sangue. E não se encara só da forma didática da música, que muitas vezes
você estuda muito e isso acontece. Lá rola muito o lance do espírito, da alma,
dentro do trabalho. E é isso que eu acho que faz a diferença, faz a gente
realmente ter uma verdade no trabalho quando a gente toca. Até um cubano que não
é músico, é um DJ, cujo nome não vou citar pois ele é conhecido, disse para mim
assim: “É rapaz, a música, a nossa música (se referindo à musica dele) é feita
para la gente. É feita para as pessoas e o músico quando toca para si não toca
para as pessoas e nossa música é para diversão. Tem que fazer com que la gente
goze.” As pessoas têm que gozar e você tem que olhar e sentir a pancada no
coração e entregar-se. E por isso eu digo que não adianta fazer o discurso
da salsa pura e não se entregar para o público. Senão vai ficar naquele negócio
de mostrar o quanto eu sei dançar com a mulher, e você, que toca numa banda de
salsa, vai lá para mostrar o quanto você não sei o quê, porque você não troca,
não há uma comunicação com o público. Tem de haver, sim, essa interatividade e
essa vontade! E o Salsalitro tem a preocupação que você colocou. Se fosse algo
só para ganhar público, ficar gatinho e formosinho, não haveria tanto essa
preocupação com a música. O que mais acontece no Brasil é isso. O cara faz
sucesso, corta o cabelo assim e assado, carro importado, mas não estuda, não tem
a mínima preocupação em estudar seus instrumentos. É diferente. O
Salsalitro, como você mesmo colocou -- ainda bem que foi você que colocou -- tem
uma preocupação muito grande com a qualidade da música justamente para ninguém
dizer: “Não. Isso aí é um descaramento.”, “Mais ou menos.”
Mas esse é
um comentário que as pessoas estão fazendo. Muitas pessoas vão ao show com o pé
atrás e pensando “mas cantam em português", e quando vêem falam
"Nossa!” Você imagina, mas depois sente que são músicos. Vejam algumas
coisas que as pessoas tentam fazer, como por exemplo algumas músicas que o
cantor em português tenta fazer uma salsa, como na novela Tropicaliente onde a
Elba cantava: “Tropicaliente ô ô ô”. Na novela Salsa e Merengue, que foi escrita
pelo Miguel Falabella não havia uma salsa sequer, mas uma lambada tecno-pop do
Ricky Martin que era "un, dos, tres, Maria" e aí o grande público fica pensando
que salsa é aquilo. A gente sabe que salsa não é aquilo. As pessoas podem fazer
esse comentário, mas vão ter de vir aqui para assistir e comprovar.
Ito Araújo: Na semana passada eu estive conversando com um
venezuelano que estava aqui querendo comprar o disco da gente de qualquer jeito.
“Eu quero o disco.” E eu falava “Não temos”. Não trouxemos CDs para vender, mas
sim para divulgar o trabalho. E não tínhamos mais discos. E ele queria porque
queria: ”Mas como é que eu faço?”. Era quarta-feira e ele ia viajar para
Venezuela na sexta. Aí eu disse “Vou tentar conseguir. Logo que eu puder eu
consigo para você". Ele falou "Eu preciso porque é muito bom o que vocês fazem e
um detalhe: vocês cantam em português e passam o cubano da música, passam a
coisa de Cuba.”
Ilunga: A latinidade.
“Passam a
latinidade. Mesmo vocês cantando em português, vocês conseguem passar a
conotação que Cuba transmite na música. Aquela alegria, o negócio direto que o
cara recebe e quer balançar na mesma hora.”. Essa é a história de um venezuelano
que está acostumado a ouvir esse tipo de música o tempo inteiro no país dele
desde que nasceu. Ele insistiu tanto que disse: “Vou divulgar de graça o
trabalho de vocês lá na Venezuela. Eu quero o CD”. Aí fiquei chateado porque não
tínhamos o CD, mas fiquei de mandar para ele na Venezuela.”
Vocês
precisam ver quando tocamos no Bar Brahma. Às vezes aparecia um cubano
emocionado...
Mas há um dado interessante. Não sei se é impressão
equivocada minha, mas me parece que a salsa brasileira só poderia ter nascido na
Bahia. Por quê?
Jorge Zarath: Isso que ele falou você escreve em
negrito. Eles vão querer me matar... mas porque baiano sabe fazer festa. Bom,
escreve tudo isso aí.
Ilunga: Não. Vai ficar insuportável.
Jorge Zarath: Se vai ficar insuportável, você releva.
Ilunga: É diferente. Isso vai ficar insuportável depois.
Jorge Zarath: Não, não, não, não, não. Porque não dá para ficar
parado. Pode ser o cara mais chato, ele vem, fala mal, mas pelo menos o pé ele
mexeu, debaixo da mesa, escondido, e com mais uma coisa, é uma festa, porque,
enfim, baiano sabe fazer festa. Não dá para ficar parado. Além disso, há a
qualidade musical.
Ilunga: E por outro lado, para o músico, é
satisfatório e incomoda porque, por mais que você fale, não dá para dizer “os
caras são mais ou menos”.
Gostaríamos de agradecer muitíssimo ao
Salsalitro pela entrevista.
Jorge Zarath: Foi um prazer! Eu quero
isso provoque críticas. Eu acho ótimo receber críticas.
Então,
salseros, como sugerido pelo Jorge Zarath, mandem seus comentários!
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